Comentário Lições Biblicas da CPAD

As Funções Sociais e Políticas da Profecia

COMENTÁRIO

(I. INTRODUÇÃO)

Um povo só se torna realmente justo quando conhece, de forma clara e objetiva, o real significado da palavra justiça. Na Língua Portuguesa, a palavra justiça também é utilizada para referir-se a órgãos do Setor Judiciário, (Justiça do Trabalho, Justiça Federal, Justiça Internacional, etc...). Esse emprego duplo na linguagem ajuda a confundir, e o princípio de justiça ainda não é compreendido pela maioria (Justiça é o caráter, qualidade do que está em conformidade com o que é direito com o que é justo; princípio moral em nome do qual o direito deve ser respeitado - Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Editora Objetivo, Rio de Janeiro, 2001). A palavra ‘justiça’ refere-se, antes de tudo, a um princípio de eqüidade, de igualdade proporcional. Em linhas gerais, ‘justiça’ é não oprimir nem privilegiar; é não menosprezar nem endeusar; é não subvalorizar e tampouco supervalorizar. O primeiro conceito de ‘justiça’ vem do mundo secular. O interesse na ‘justiça’, na Bíblia, tem sua origem nas exigências pela justiça social e política, bem como pelos direitos humanos. A justiça social está presente na Lei e nos Profetas, abrangendo o aspecto político e religioso. A Bíblia, como um todo, não nega a importância dessas demandas, porém reinterpreta os objetivos da ‘justiça’, para dar-lhe um novo significado. Nesse afã de dar uma nova roupagem ao conceito tradicional de ‘justiça’, é preciso refletir na seguinte questão: Qual é a base do Antigo Testamento para a reformulação do conceito de 'justiça'?

(II. DESENVOLVIMENTO)

I. O PAPEL POLÍTICO E SOCIAL DA PROFECIA NAS ESCRITURAS

1. O profeta e o povo. Os profetas foram homens de Deus vocacionados para um árduo trabalho e estavam acima dos demais homens em virtude desse chamado e o conseqüente relacionamento íntimo que gozavam com YAHWEH. Os demais representantes divinos (sacerdotes, juízes, reis) tinham o seu quinhão, mas nenhum destes alcançou a influencia dos profetas na história da nação judaica e na história da redenção. A figura do profeta está presente na história bíblica desde a época patriarcal (Gn 20.7). Ainda que haja menção de Abraão como profeta (Gn. 20.7), é Moisés o primeiro profeta nacional de Israel. Antes da instauração da monarquia em Israel, os profetas eram vistos como figuras centrais pela sociedade, pois eram os únicos canais humanos e legítimos de comunicação entre Deus e o povo. Em 1Sm 9.9, temos um esclarecimento que nos permite afirmar que, num primeiro momento, o profeta em Israel era o rõ’eh e/ou hõzeh (vidente). Com a monarquia, houve desenvolvimento do conceito e o profeta passou a ser chamado de nabi, e pela forma feminina nebiyah, (profetisa; como Miriã, Débora, Hulda (duas vezes), Noadias e a esposa de Isaías. - PC 1Sm 3.20, Bíblia de Estudo plenitude, p. 293), aquele que anuncia a vontade de Deus através da palavra. Já o ofício profético organizado em Israel remonta aos dias do profeta Samuel. Foi ele quem deu origem ao ofício de profeta como uma ordem ou classe organizada. Nesse sentido, ele é “o primeiro dos profetas” – distinção que as Escrituras neotestamentárias reconhecem perfeitamente: “E todos os profetas desde Samuel, todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias” (At 3.24 cf. 13.20; Hb 11.32). É Samuel quem elenca os critérios para se distinguir o verdadeiro profeta: ele é chamado por Deus (1Sm 3.4ss); tudo o que diz se cumpre (1Sm 3.19); anuncia a Palavra (1Sm 4.1); defende a justiça social (1Sm 8.11-18); intercede pelo povo (1Sm 9.6,8,10); é homem de YAHWEH (1Sm 9.9,11,18,19), seu instrumento (1Sm 10.1ss) e proclamador de oráculos (1Sm 22.23,28). Mas é, sobretudo, fiel à Lei (1Sm 12.1-5). Além desse elenco, o critério fundamental são as próprias palavras do homem que se apresenta como profeta: se aquilo que diz se verifica, então será considerado verdadeiro profeta: “Quando o profeta falar em nome do SENHOR, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é palavra que o SENHOR não falou; com soberba a falou aquele profeta; não tenhas temor dele.” (18,22). Depois do exílio, nasce o judaísmo propriamente dito, com todas as suas leis. O profeta não perde seu valor e Samuel institucionaliza o ofício de profeta - nasce uma instituição, mais importante na vida de Israel do que a própria monarquia: “E quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós; antes vos ensinarei o caminho bom e direito.” (1Sm 12.23). Foram líderes não apenas religiosos, mas também políticos, cujas atividades proféticas cumpriam importantes funções de ordem política e social. (Dt 34.10-12; 1 Sm 3.1,20,21; 7.15-17).

2. O profeta e o rei. A partir do reinado de Davi, os profetas passaram a fazer parte do grupo de conselheiros do rei. Natã e Gade são exemplos desse período (2 Sm 7.17; 24.18,19). A monarquia, ou qualquer outra forma de poder, não é intrinsecamente má, mas longe do princípio da justiça divina se absolutiza e torna-se veículo de opressão (1Sm 8.11ss). O perigo só se afasta se houver a acolhida dos conselhos corajosos dos enviados de YAHWEH. Suas profecias tinham não somente uma função política, mas também eram importantes para a manutenção da ordem social.

3. O profeta marginalizado. O movimento profético fora veementemente contra a imposição da monarquia sobre o povo, justamente porque ele fora estabelecido para favorecer uma minoria rica e abastada enquanto que o povo era tributado e oprimido pelo sistema real. Na monarquia, houve a necessidade de se centralizar o culto na cidade do rei, ou seja, na capital e com isso mostrar que o rei era representante de Deus na terra e suas decisões estavam de acordo com a vontade divina. O templo também serviu para calar a voz dos revoltosos e assim diminuir a intensidade dos conflitos, pois Israel passara a depositar cada vez mais suas esperanças no templo. O profeta Jeremias criticou essa postura de Israel, quando diz:

“A palavra que da parte do SENHOR, veio a Jeremias, dizendo: Põe-te à porta da casa do SENHOR, e proclama ali esta palavra, e dize: Ouvi a palavra do SENHOR, todos de Judá, os que entrais por estas portas, para adorardes ao SENHOR. Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Melhorai os vossos caminhos e as vossas obras, e vos farei habitar neste lugar. Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do SENHOR, templo do SENHOR, templo do SENHOR é este. Mas, se deveras melhorardes os vossos caminhos e as vossas obras; se deveras praticardes o juízo entre um homem e o seu próximo; Se não oprimirdes o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, nem andardes após outros deuses para vosso próprio mal, Eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais, desde os tempos antigos e para sempre. Eis que vós confiais em palavras falsas, que para nada vos aproveitam. Porventura furtareis, e matareis, e adulterareis, e jurareis falsamente, e queimareis incenso a Baal, e andareis após outros deuses que não conhecestes, E então vireis, e vos poreis diante de mim nesta casa, que se chama pelo meu nome, e direis: Fomos libertados para fazermos todas estas abominações? É pois esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o SENHOR. Mas ide agora ao meu lugar, que estava em Siló, onde, ao princípio, fiz habitar o meu nome, e vede o que lhe fiz, por causa da maldade do meu povo Israel. Agora, pois, porquanto fazeis todas estas obras, diz o SENHOR, e eu vos falei, madrugando, e falando, e não ouvistes, e chamei-vos, e não respondestes, Farei também a esta casa, que se chama pelo meu nome, na qual confiais, e a este lugar, que vos dei a vós e a vossos pais, como fiz a Siló.” (Jr 7.1-14).

Com a decadência espiritual dos monarcas de Israel, os profetas desenvolveram seu ministério distante do culto central. Dessa forma, se empenharam em mudar a estrutura social tanto em Samaria como em Jerusalém, diante de tanta corrupção e injustiça generalizada.

SINÓPSE DO TÓPICO (1)

A profecia exercia um papel fundamental na esfera política e social em Israel, haja vista os ministérios dos profetas Moisés, Samuel, Natã, Isaías e Jeremias.

II. O PROFETA É ENVIADO AO REI

1. O princípio do fim do reino de Judá. Reino Dividido: Judá e Israel - Após a morte de Salomão, as tribos do norte se separaram, criando o reino de Israel ou do Norte. Este reino possuía uma área geográfica maior e era mais rico que o reino do Sul ou de Judá. Porém, politicamente era instável, ao contrário do de Judá, que continuou governado pela dinastia de Davi. A separação pode ser estuda de um ponto de vista da ‘Justiça Social’: Em 931 a.C.; as dez tribos do norte se revoltaram contra o regime opressor decretado pelo o filho de Salomão, formando o reino de Israel. A dinastia davídica restringiu-se ao território de Judá, com a parte da antiga tribo de Benjamim, que lhe era vizinha. Esse reino, situado no sul, passou para história com o nome de Judá. O cisma político foi causado principalmente, por discordâncias do sistema de governo. As tribos do Norte, penalizadas com os tributos no regime de Salomão, reivindicavam um sistema igualitário e menos opressor. A falta de experiência política de Roboão, anunciando um governo ainda mais opressor, provocou a revolta e consolidou a dissidência entre as duas regiões. O Reino de Israel iniciou-se com o reinado de Jeroboão I, após a morte de Salomão, em 931 aC, e se prolongou até 722 aC, quando este reino foi conquistado pelos Assírios. Já o reino de Judá, também inaugurado após a morte de Salomão, teve como primeiro rei Roboão, seu filho, e prolongou-se até a conquista pelos babilônicos em 597 a.C. Motivo do castigo imposto à Judá - O ‘ponta-pé’ inicial da derrocada do reino do sul foi dado pelo ímpio rei Manassés, procedendo mau aos olhos de Deus, e por causa de suas obras, todo Judá estava condenado ao exílio e à escravidão, o que veio a suceder-se após o reinado de Ezequias. O declínio do Egito, da Fenícia e das nações vizinhas contribuiu para o isolamento de Judá e o quadro acelerou-se depois da queda do reino do Norte (Israel), quando os reis de Judá foram obrigados a reconhecer a supremacia Assíria. Deviam pagar-lhe pesados impostos, cuja carga recaía sobre o povo. No oriente próximo, a Assíria entra em rápido declínio, e em poucos anos seu território foi absorvido pela Babilônia. Nabucodonosor II, rei da Babilônia, empreendeu uma campanha militar contra Judá. Enfrentando pouca resistência, conseguiu entrar em Jerusalém, em 598 a.C., e levou consigo utensílios do Templo e o próprio rei Jeoaquim como prisioneiro. Em seu lugar, estabeleceu o filho de Jeoaquim, Joaquim, como rei de Judá. Joaquim, com oito anos de idade, teve o mesmo destino de seu pai 3 meses e 10 dias depois de sua coroação. Nabucodonosor então colocou sobre o trono o irmão de Joaquim, Zedequias. Governando como um títere da Babilônia, Zedequias manteve-se no poder por 11 anos, quando então rebelou-se contra Nabucodonosor, provavelmente ao recusar-se pagar os pesados tributos. Foi o suficiente para que o rei babilônico declarasse guerra a Judá, invadisse Jerusalém, matasse seus habitantes, despojasse o Templo de todos os seus bens de valor e ateasse fogo a ele. O Reino de Judá já não existia mais. No devastado Judá permaneceram apenas os mais pobres. Todo o restante do povo que sobreviveu ao ataque de Nabucodonosor foi levado às cidades do reino da Babilônia. A história de Judá após exílio na Babilônia passou a ser a mesma do próprio povo Judeu, até os dias de hoje.

2. Profecia dirigida ao rei. Enquanto a cidade de Jerusalém estava sob o cerco babilônico e a maioria das cidades fortificadas de Judá estavam assoladas, revela-se a Zedequias que ele será capturado pelos babilônios, mas que teria morte pacífica e funerais dignos. Um quadro bem mais sombrio é descrito no capítulo 21 e o tratamento de Zedequias é descrito no capítulo 52.8-11.

3. O destino do rei Zedequias é anunciado. Por qual motivo Jeremias não era benquisto em Judá? Sua mensagem era: “Se quisesse ter paz, o povo deveria se submeter ao rei da Babilônia”. Nabucodonozor nomeou para o trono a Zedequias, tio de Jeoaquim. Zedequias era o filho mais novo de Josias, e foi o ultimo rei de Judá. Foi um governante pífio, que procurava contrabalancear as facções adversárias que lutavam pelo poder em Judá. Ele começou a ouvir mais a Jeremias do que seus antecessores; porém era tarde demais para isso fazer qualquer diferença. Zedequias governou por dez anos, pagando tributos a Babilônia. Quando Zedequias deixou de pagar tributo e firmou um acordo com o Egito, Nabucodonozor perdeu a paciência e mandou um exercito para por fim à cidade de Jerusalém. Infelizmente, os contemporâneos de Jeremias acreditavam mais na mensagem do falso profeta Hananias, que incitava o povo a se levantar contra o rei de Babilônia, dizendo - mentirosamente - que em dois anos seria quebrado o jugo dos caldeus (28.11). Por isso, esse profeta era visto com desconfiança, como um espião em favor dos inimigos, e tido como traidor (37.13).

SINÓPSE DO TÓPICO (2)

A questão social em Israel era tão relevante para o Senhor que, por ignorá-la, Zedequias e o povo foram severamente castigados.

III. A QUESTÃO DE ORDEM SOCIAL

1. A liberdade dos escravos hebreus. A Babilônia havia sitiado Jerusalém e a cidade estava prestes a ser destruída. Zedequias resolveu ouvir os conselhos de Jeremias e convoca a nação a libertar os escravos, esperando com isso o livramento divino. Pensou que poderia angariar os favores divinos por meio de um ‘ato de bondade’, mas o que Deus esperava dele e da nação era uma conversão sincera. Bastou os caldeus darem uma folga durante o cerco, o povo recuou da ‘ação bondosa’. A tentativa de libertar os escravos e de cumprir o que determinava Lv 25.54, foi incompleta.

2. A alforria dos escravos é cancelada. Os judeus tinham uma concepção acerca da escravidão diferente do mundo ocidental. Ela não tinha cunho racial, mas tratava-se de uma ‘política econômica’, cuja intenção era prevenir o total desamparos dos desvalidos. Haviam leis que protegiam os direitos dos escravos, e este, deveria ser liberto no Ano do Jubileu. Como muitos pontos da Lei, este também deixou de ser observado. No Templo, os judeus prometeram obedecer solenemente ao Senhor, mas de volta às suas casas, esqueceram do que haviam votado.

3. A indignação divina. O Senhor almeja que nossas promessas sejam reais e cumpridas cabalmente, não apenas nos momentos de adoração. O rei e o povo não observaram o que prometeram, um sinal de que não houve arrependimento e mudança de vida. Não foram os caldeus que deitaram a espada sobre Judá, mas foi o próprio Deus fazendo cumprir o que determinava a cerimônia do pacto:cortar um bezerro em duas partes e caminhar entre elas, era um modo habitual de ratificar um contrato; a parte que não cumprisse o acordado deveria perecer do mesmo modo como os animais (Gn 15.9,10).

SINÓPSE DO TÓPICO (3)

A questão social em Israel era tão relevante para o Senhor que, por ignorá-la, Zedequias e o povo foram severamente castigados.

(III. CONCLUSÂO)

Em Jr 23.6 há uma promessa de renovo , Deus promete recolher o resto, fazê-lo voltar e levantar um Renovo Justo, que será um verdadeiro rei davídico. O oráculo faz um jogo com o nome de Zedequias (O Senhor é minha justiça), com o Renovo justo (O Senhor, Justiça Nossa), Jesus, que foi justiça em tudo o que realizou. Deus ensinou a base para reconstruir a nação: observar a justiça; abandonar o mal e fazer o bem. Fazer o que é certo é mais que crer em todas as doutrinas a respeito de Deus. Significa viver em obediência a Ele. As boas ações não nos salvam, porém têm um peso na demonstração da fé que possuímos.

 

BIBLIOGRAFIA PESQUISADA

- RICHARDS, Lawrence O. Guia do Leitor da Bíblia. 1.ed. RJ, CPAD, 2005, p.469;
- A Política, Aristóteles, tradução Nestor Silveira Chaves, Escala;
- Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD;
- Bíblia de Estudo Plenitude, SBB;
- STOTT. John R. W. Cristianismo Equilibrado. Rio de Janeiro, CPAD, pp.60-1
- Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Editora Objetivo, Rio de Janeiro, 2001
- http://www.slideshare.net/gotchalk/profetismo;
- Imagem: (Ana e Simeão no Templo_Rembrant).

 


 

 

 

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